Há instituições cuja relevância não se mede pela visibilidade pública, mas pela profundidade da influência que exercem sobre um país. O Instituto de Defesa Nacional (IDN) é uma dessas instituições. Ao longo de cinquenta anos ajudou Portugal a pensar estrategicamente, a formar lideranças e a aproximar a sociedade das questões da defesa e da segurança. Num tempo em que a urgência tende a substituir a reflexão, esse poderá ser o seu maior legado.
Celebrar os cinquenta anos do IDN é, naturalmente, prestar homenagem ao seu passado. Mas é também reconhecer a sua importância no presente e, sobretudo, refletir sobre o papel que deverá desempenhar no futuro. Porque se há lição que a história nos ensina é que os países que não pensam estrategicamente acabam, inevitavelmente, por reagir aos acontecimentos em vez de os anteciparem.
Tive o privilégio de frequentar o Curso de Defesa Nacional e, posteriormente, de presidir à Associação de Auditores dos Cursos de Defesa Nacional. Essa experiência permitiu-me compreender algo que considero essencial: a defesa e segurança nacional não pertence exclusivamente às Forças Armadas e de Segurança. Pertence ao Estado, às instituições e aos cidadãos. É uma responsabilidade coletiva.
O grande mérito do IDN foi precisamente ter percebido isso muito antes de muitos outros. Ao reunir militares, forças de segurança, diplomatas, magistrados, académicos, empresários, profissionais de saúde e de outras áreas da sociedade civil, gestores, investigadores, autarcas e responsáveis políticos, criou um espaço raro de reflexão estratégica interdisciplinar. E é nessa diversidade que reside uma das suas maiores forças.
Num mundo cada vez mais complexo, nenhuma organização possui isoladamente todas as respostas. A segurança contemporânea exige conhecimento multidisciplinar, cooperação institucional e uma visão integrada dos riscos.
A minha experiência enquanto médico e, mais tarde, enquanto Bastonário da Ordem dos Médicos, reforçou profundamente esta convicção. Durante décadas olhámos para a saúde como uma política pública setorial. A pandemia veio demonstrar que estávamos perante um verdadeiro desafio de segurança nacional.
Um vírus conseguiu paralisar economias, pressionar sistemas políticos, afetar cadeias de abastecimento, condicionar a liberdade de circulação e alterar profundamente o quotidiano das sociedades. Ficou evidente que a capacidade de resposta de um país depende não apenas dos seus meios, mas sobretudo da sua preparação, da sua organização e da sua resiliência.
Talvez por isso hoje esteja ainda mais convencido de que precisamos de evoluir para um conceito de Segurança Nacional Integrada.
A defesa nacional continua a exigir capacidades militares e de segurança credíveis. Continua a exigir Forças Armadas e de Segurança modernas, bem equipadas e capazes de cumprir as suas missões constitucionais e os compromissos internacionais assumidos por Portugal. Mas já não se esgota aí.
A segurança de um país depende igualmente, mas não apenas, da robustez do seu sistema de saúde, da proteção das infraestruturas críticas, da segurança energética, da segurança alimentar, da cibersegurança, da capacidade científica e tecnológica, da proteção civil, da coesão social e da confiança dos cidadãos nas instituições democráticas.
A guerra na Ucrânia veio recordar-nos que a paz nunca pode ser considerada garantida. A crescente competição estratégica entre grandes potências, a instabilidade em várias regiões do globo, os ataques híbridos, a desinformação, os ciberataques e a instrumentalização da informação demonstram que as ameaças são hoje mais difusas, permanentes e complexas.
Ao mesmo tempo, as alterações climáticas e respetivas consequências, as epidemias e pandemias, os movimentos migratórios, a escassez de recursos e as disrupções tecnológicas têm um impacto direto na estabilidade das sociedades.
Nenhuma destas ameaças pode ser enfrentada através de abordagens isoladas.
Precisamos de instituições capazes de integrar conhecimento, antecipar riscos e promover respostas coordenadas. Precisamos de uma cultura estratégica nacional.
Precisamos de preparar lideranças para a incerteza.
É precisamente neste contexto que o Instituto de Defesa Nacional se torna ainda mais importante.
Ao longo de cinco décadas, o IDN desempenhou um papel essencial na construção dessa cultura estratégica. Formou milhares de auditores, promoveu o diálogo entre a sociedade civil e as Forças Armadas e de Segurança, e contribuiu para aproximar os cidadãos das questões da defesa e da segurança.
Esse trabalho sóbrio e vital constitui um ativo estratégico do país.
Portugal possui características geopolíticas singulares. É simultaneamente um país europeu, atlântico e lusófono. Dispõe de uma das maiores zonas marítimas da Europa. Integra a NATO e a União Europeia. Mantém uma relação histórica privilegiada com vários continentes. A sua localização geográfica continua a conferir-lhe importância estratégica.
Mas a geografia, por si só, não garante relevância. A relevância constrói-se através da capacidade de compreender o mundo e de agir em conformidade com os interesses nacionais.
É por isso que os próximos cinquenta anos do IDN poderão ser de importânciafundamental.
Imagino um Instituto cada vez mais aberto à sociedade, às universidades, às empresas, aos centros tecnológicos e às novas gerações. Um Instituto reforçado na liderança do debate nacional sobre inteligência artificial, segurança marítima, autonomia estratégica europeia, cibersegurança, saúde global, alterações climáticas, proteção das infraestruturas críticas e resiliência nacional.
Imagino igualmente um Instituto com uma projeção internacional potenciada, aprofundando a cooperação com parceiros europeus, atlânticos e lusófonos e contribuindo para reforçar e afirmar Portugal como produtor de pensamento estratégico.
Mas existe uma missão que permanecerá intemporal: formar cidadãos.
Porque a defesa e segurança começa muito antes dos conflitos. Começa no conhecimento e na capacidade de otimizar a sua gestão. Começa na educação. Começa na preparação das pessoas. Começa na capacidade de distinguir informação de manipulação, risco de perceção e estratégia de improvisação.
Ao longo de cinquenta anos, o Instituto de Defesa Nacional ajudou Portugal a pensar o seu lugar no mundo. Nos próximos cinquenta terá de ajudar Portugal a antecipar um mundo cada vez mais imprevisível.
Essa talvez seja a sua missão mais exigente.
E também a mais importante.
Num tempo de incerteza global, investir no pensamento estratégico, na cultura de defesa e na resiliência nacional não é um luxo académico nem uma opção política circunstancial. É uma necessidade de soberania.
O Instituto de Defesa Nacional compreendeu isso há cinquenta anos.
Portugal continua a precisar que o compreenda nos próximos cinquenta.
Concluo, deixando as minhas felicitações, pela excelência do trabalho desenvolvido pelo Instituto de Defesa Nacional durante os seus primeiros 50 anos de existência, nas pessoas de todos os seus Diretores-Gerais, Subdiretores e Colaboradores, que de forma brilhante e continuada, contribuíram para a elevação e prestígio do IDN. Obrigado.

Miguel Guimarães
Presidente da AACDN

