A propósito do 44º aniversario da AACDN
Em Portugal, como em qualquer sociedade plural, os movimentos associativos constituem uma das expressões mais sólidas e duradouras da participação cívica. São espaços onde se encontra o espírito da comunidade, onde se partilham ideias, se constroem projetos e se gera sentido de pertença. A tradição associativa portuguesa é antiga, marcada pela existência de coletividades culturais, recreativas, profissionais e cívicas que, ao longo de décadas, foram sedimentando práticas de participação ativa, mesmo em períodos em que o exercício pleno da cidadania se encontrava condicionado.
A celebração do aniversário da Associação de Auditores dos Cursos de Defesa Nacional oferece, por isso, uma oportunidade privilegiada para refletir sobre este papel insubstituível do associativismo. A associação em causa reúne cidadãos que, tendo frequentado com aproveitamento os cursos do Instituto de Defesa Nacional, partilham não apenas um percurso académico e formativo, mas também o compromisso de aprofundar o debate sobre a defesa, a segurança e a cidadania. É um exemplo concreto da forma como, em Portugal, o associativismo não se limita a interesses locais ou a atividades recreativas: também se projeta na esfera política, estratégica e conceptual, funcionando como motor de discussão qualificada sobre temas centrais para o futuro coletivo.
O movimento associativo é, em si mesmo, um exercício de democracia. Em cada assembleia, em cada reunião, em cada tomada de decisão, ensaia-se, em pequena escala, o funcionamento das instituições políticas: debate, negociação, consenso, deliberação. É este microcosmo democrático que fortalece os cidadãos, que os capacita para compreender e valorizar as exigências de uma sociedade livre e plural. Mais do que isso, ao promover a convivência entre diferentes percursos profissionais, sensibilidades ideológicas e visões do mundo, as associações são laboratórios de tolerância e de aprendizagem cívica.
Num tempo em que o espaço público tende a fragmentar-se em bolhas digitais e em que o debate corre o risco de se transformar em mera sucessão de monólogos, a experiência associativa recupera a dimensão do diálogo presencial, da escuta atenta, do encontro humano. Nas sedes das associações — sejam elas culturais, económicas, científicas ou de defesa nacional — concretiza-se o que muitas vezes falta nos fóruns digitais: a disponibilidade para o contraditório e a abertura para o compromisso.
A história recente de Portugal mostra como estes movimentos se tornaram espaços de resistência, de inovação e de progresso. No século XIX, os grémios e associações de trabalhadores foram decisivos na construção de direitos sociais. No século XX, as coletividades culturais e recreativas constituíram refúgios de liberdade e espaços de transmissão de valores em períodos de restrição. Hoje, no século XXI, são as associações profissionais, científicas e cívicas que assumem a tarefa de articular o conhecimento especializado com a vida pública, contribuindo para que a decisão política não se desligue da reflexão crítica.
A importância do associativismo vai, por isso, muito além do círculo imediato dos seus membros. Uma associação é sempre um nó numa rede mais vasta, onde circulam ideias, projetos e valores que influenciam a sociedade no seu todo. Quando uma associação debate a defesa nacional, contribui para a consciência coletiva sobre a segurança. Quando uma coletividade cultural promove atividades no seu bairro, reforça a coesão social. Quando uma associação profissional organiza encontros e conferências, eleva a qualidade do debate técnico e político.
Neste sentido, as associações são não apenas espaços de pertença, mas também instrumentos de mediação entre o indivíduo e o Estado. Constituem uma espécie de terceiro espaço: nem totalmente privado, nem totalmente público, mas profundamente político. E é nesse espaço intermédio que reside a sua força: permitem que os cidadãos se organizem livremente, sem tutela estatal, e ao mesmo tempo que se tornem mais capazes de participar, de forma esclarecida, nas decisões coletivas.
Celebrar o 44º aniversário da Associação de Auditores dos Cursos de Defesa Nacional é, portanto, mais do que assinalar a longevidade de uma instituição. É reconhecer a vitalidade do associativismo português, na sua pluralidade de formas e objetivos. É reafirmar que o debate informado, a partilha de experiências e a construção de redes de conhecimento são bens públicos, que enriquecem a vida democrática.
Num tempo de desafios globais e de incerteza, as associações recordam-nos que a cidadania se constrói em comunidade e que a democracia se alimenta de participação. O seu valor não está apenas no passado que honram, mas sobretudo no futuro que ajudam a construir.

Prof Doutora Fátima Carvalho
Auditora do Curso de Defesa Nacional
Assistente Graduada Sénior de Cirurgia Pediátrica na ULSS António

