O fim do Mundo Multilateral …

 

“…The World Economic Forum, held in Davos, Switzerland in January, made clear that multilateralism is in crisis…”[1]

 

Vivemos atualmente numa Época caracterizada pela instabilidade, imprevisibilidade e incerteza nas dinâmicas geopolíticas que caracterizam as relações internacionais. Uma Época que procura recuperar dogmas e princípios do passado, e projetar no futuro o conhecido conceito de “Poder” de Ray Cline, onde aliado à intenção geopolítica está a capacitação geoestratégica de ganhar protagonismo e relevância na cena internacional. Vivemos num presente muito perigoso e altamente complexo, com atores predatórios a revolucionar a forma como existirmos em sociedade, e muitas vezes a confundirem paz com guerra e desenvolvimento com subsistência, criando a ideia de que se avizinha uma nova ordem…a ordem das superpotências.

Um Mundo que é crescentemente multipolar e menos multilateral. Um Mundo onde as alianças são estrategicamente ocasionais e conjunturais, onde as relações entre Estados se regem pela maior ou menor capacidade de projetar poder e influência nos seus espaços conjunturais de interesse geoestratégicos…vejamos como exemplos do supracitado o caso da invasão da Ucrânia por parte da Federação Rússia; da interferência política na Venezuela e a ameaça à ocupação e anexação da Gronelândia por parte dos Estados Unidos da América, e ainda a pressão politico-ideológica sobre Taiwan por parte da República Popular da China.

Um paradigma novo que reflete e releva a decadência do multilateralismo ativo em prol de um unilateralismo absoluto, em que os Estados não confiam nos Estados e as organizações internacionais são pouco eficientes e relevantes na procura da segurança e desenvolvimento sustentado. Estamos perante o surgimento de um “novo” paradigma que irá caraterizar os tempos vindouros e vai contribuir para o surgimento de uma Época mais imprevisível e intrincada, onde existe pouco espaço para a diplomacia e para a cooperação internacional, e onde tudo aponta para que tenhamos um Mundo mais multipolar e unilateral e cada vez menos unipolar e multilateral. As organizações internacionais estão a perder relevância em múltiplos domínios (segurança, ambiente, economia e saúde) e correm o risco de se tornarem irrelevantes e, ou se adaptam e servem propósitos, ou são incipientes e “morrem”.

O multilateralismo ativo está assim numa encruzilhada proporcionado pela perda de relevância política e significado estratégico. Está dominado pela pouca vontade e relevância que os Estados diretores lhe atribuem e que tendem a tornar as organizações internacionais em espaços de incapacidades, incumprimentos, incoerência e de irrelevância político-estratégica. Neste contexto, o papel das organizações internacionais e dos atores multilaterais em geral tornou-se a voz dos “sem poder” e deixaram de ser entendidas como uma solução conjunta para problemas complexos.

O multilateralismo, representado na sua máxima extensão pelas NU, encontra-se assim num complexo e imprevisível momento de viragem da sua presença nos palcos e nas decisões internacionais. O multilateralismo está em vias de morrer ou em vias de se suicidar pela vontade daqueles que lhe deram razão de ser e de existir nestes últimos 80 anos. Um “novo” paradigma onde nem os seus tribunais, a sua legislação, os seus mecanismos e instrumentos são respeitados, utilizados e vistos como soluções integradas para os problemas complexos que nos perturbam.

Os conflitos passaram a ser geridos pela vontade de “alguns” Estados, e as questões do comércio global, das comunicações, do acesso à saúde, educação e conhecimento, para não falar da gestão do espaço e do ciberespaço, entre outros domínios inovadores e desafiantes, passou a ser gerido por interesses e abriu uma porta para o surgimento de novos atores que se aliam aos Estados para induzir normativos, legislação e procedimentos que condicionam e limitam, em muito, a liberdade de acesso ao conhecimento e a possibilidade de alguns Estados “menores” poderem garantir progresso e segurança para a sua população.

Assim, em resumo, tudo aponta para que o multilateralismo esteja, nas condições atuais, em fim de vida útil e que possam surgir novas formas de regular e organizar a sociedade internacional. Uma nova ordem que tudo aponta será regulada pelo Poder e pela lei dos Estados diretores que colocam os seus interesses em primazia dos interesses e valores da cooperação e da partilha que tem caracterizado a ordem multilateral até aos nossos dias.

O Mundo atual e no futuro será caracterizado por uma Época de enormes desafios para as organizações internacionais. Um paradigma de mudança em que os Estados serão os principais responsáveis por essa mudança, mas também serão as principais vítimas da desagregação e irrelevância multilateral dos tempos que se avizinham.

Lisboa, 22 de fevereiro de 2026

Coronel Luís Bernardino
Mestre em Estratégia e Doutorado em Relações Internacionais pela Universidade de Lisboa. Coronel na Reserva do Exército Português com experiência operacional em missões da UE, NATO e ONU. Possui o Curso de estado Maior Conjunto e é Auditor de Defesa Nacional. Atualmente, é Professor Auxiliar no Departamento de Relações Internacionais da Universidade Autónoma de Lisboa (UAL), e Investigador Integrado no Centro de Estudos Internacionais do ISCTE e no OBSERVARE – Observatório das Relações Exteriores da UAL. lbernardino@autonoma.pt

 [1] https://lens.civicus.org/davos-2026-multilateralism-at-a-breaking-point/

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