Os conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente alteraram radicalmente a maneira de se fazer a guerra nomeadamente no campo das armas e do seu emprego tendo obrigado as forças armadas a encontrar novas formas de adaptação aos novos «campos de batalha e com isso velhas teorias de aplicação dos vetores terrestres, navais e aéreos foram ultrapassadas.
Em primeiro lugar, a defesa das cidades e pontos críticos dos Estados (complexos industriais, vias de comunicação, centrais elétricas, etc) exigiram um reforço enorme muito diferente do que se viu durante as campanhas da II Guerra Mundial em que os radares, os canhões antiaéreos e a aviação de caça conseguiam dar conta do recado pois sabiam a proveniência dos meios inimigos, do seu volume e da sua eventual força destruidora.
O aparecimento dos mísseis balísticos, muitos deles com velocidades hipersónicas e dificilmente detetáveis, e sobretudo dos drones de todos os modelos fabricados aos milhares e a custos baixos, trouxe aos campos de batalha uma realidade nova chamada incerteza pois muitos desses drones são puros engodos que se destinam a enganar as defesas aéreas dos pontos a defender causando um enorme desgaste de material que não é fácil de substituir atendendo à tecnologia de que são dotados e aos elevados custos que muitos deles
comportam
Um ataque diário à Ucrânia com o emprego de dezenas de mísseis e centenas de drones implica, para uma destruição de cerca de 90% desses meios, um gasto que pode ascender a muitas centenas de milhões de euros que Kiev não possuiria caso a ajuda dos países ocidentais não fosse substancial e constante.
A guerra dos EUA e de Israel contra o Irão é uma prova do que dissemos atrás, com efeito, a defesa do Estado hebraico, com uma área idêntica ao do nosso Alentejo, implica, que só num dia um montante de mil milhões de euros, o equivalente a 20% dos 2% do PIB que o Estado português atribuiu à Defesa. E por muita ajuda que Jerusalém receba de Washington, esse valor e as quebras das receitas do Turismo que Israel regista desde 7 de outubro de 2023 resultarão insuficientes se o conflito se prolongar por mais semanas.
Quando se fala no rearmamento da NATO e da União Europeia em que o PIB com a Defesa poderá atingir o número astronómico de 5%, Portugal, país essencialmente marítimo, com uma grande zona económica exclusiva e dois arquipélagos de grande valor estratégico, num momento em que os EUA de Donald Trump ensaiam um adeus à NATO, as opções do governo português no que concerne à Defesa Nacional e à modernização das forças armadas, terão de ser bem estudadas, estruturadas e planeadas. E porque, se o país tem a ambição, legítima de poder assegurar uma defesa mínima de todo o seu vasto espaço terrestre, marítimo e aéreo, os meios e os custos que essa decisão implicam serão muitos elevados.
De seguida, a indústria de Defesa em Portugal, mesmo vocacionada, no passado recente, para a produção de meios pouco tecnológicos, está obrigada a dar um grande salto em frente em áreas como a construção de unidades navais, aviões ligeiros, blindados de rodas, mísseis e drones, armas ligeiras e sobretudo, dotar-se de um complexo para a produção de munições para armas ligeiras e óbuses de 105 e 155mm. Mesmo com acordos com Estados com fortes tradições na área da Defesa, como a Espanha, a Alemanha ou mesmo o Brasil (aqui o caso dos
aviões KC-390 é um bom exemplo). Porém, aqui teremos sempre a questão das opções dos materiais a adquirir, dos preços e dos prazos de entrega. Vejam-se, a título de exemplo, os preços de alguns meios que Portugal poderá/deverá adquirir:
Um caça F-35A = 100/110 milhões de euros, uma fragata = 1.000 milhões de euros, um submarino Tipo-214 = até 1.000 milhões de euros, um carro de combate Leopard 2A8 = 34 milhões euros, um veículo blindado de combate Boxer = 21 milhões euros, um míssil ar/ar Sidewinder = 700.000 euros, um óbus Caesar = 3 milhões euros, um sistema de Defesa Aéreo IRIS-T SLM = 1.000 milhões euros, um míssil Patriot PAC-3MSE = 5 milhões euros, um sistema de Defesa Aéreo Steel Dome = 1.900 milhões de dls, um avião de patrulhamento marítimo P-8A Poseidon = 200/230 milhões dls.
Finalmente, uma breve referência à forte concorrência às várias indústrias de Defesa da Europa e porque, no continente europeu, produzem-se três modelos de carros de combate, três tipos de caças, quatro tipos de óbuses, cinco classes de fragatas e várias classes de navios patrulhas, meios muitos deles com custos muito superiores aos que os EUA oferecem aos seus parceiros da NATO. Nesta área, os decisores políticos têm de ter coragem, a bem da defesa coletiva da Europa, e entenderem que os tempos sombrios que vivemos não deixam muito espaço para negociações e adiamentos pois os inimigos do ocidente conhecem-lhe as muitas fraquezas. Espera-se que a recente vitória da democracia na Hungria possa ajudar na tomada de decisões pois a manteiga pode faltar se os canhões, na hora própria, falharem na defesa dos que a consomem.
Portugal, a poucos anos de celebrar nove séculos de existência, pode e deve saberse defender pois a História teve e tem muitos exemplos de que os aliados podem, em hora de maior aperto, não serem fiáveis e olharem para os seus próprios interesses esquecendo os dos seus aliados e amigos”.

Doutor Manuel Alves
Sócio AACDN: 986/1995

