“A riqueza de uma nação mede-se pela riqueza do povo e não pela
riqueza dos príncipes”
Adam Smith
A geoeconomia nas relações internacionais é um campo de estudo que examina as interações entre poder político e interesses econômicos num cenário global. Estamos num mundo em que a economia e a política estão intrinsecamente ligadas e compreender essa dinâmica é fundamental para analisar as relações internacionais contemporâneas.
Este artigo explora os principais conceitos e fatores que moldam a geoeconomia nas relações internacionais, destacando as suas implicações para os Estados-nação, as empresas e as organizações não governamentais internacionais.
Num mundo complexo onde a ordem internacional liberal, saída da II Guerra, e as instituições por ela construídas apresenta-se em crise, nomeadamente após a eleição de Donald Trump,
A geoeconomia refere-se ao uso de estratégias econômicas em política internacional e como tais estratégias influenciam o poder e a influência global. Ela envolve a análise de recursos naturais, as cadeias de fornecimento, os investimentos estrangeiros diretos e a dinâmica de mercados financeiros. Além disso, analisa como as nações utilizam a riqueza e recursos econômicos para alcançar os seus objetivos geopolíticos.
Vários fatores influenciam a geoeconomia nas relações internacionais sendo de referir os seguintes:
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- Recursos Naturais: A posse e o controle de recursos como petróleo, gás natural, minerais e água são cruciais. Países ricos em recursos frequentemente têm maior poder nas relações internacionais.
- Cadeias de fornecimento: A globalização criou cadeias de suprimento complexas. A localização geográfica de processos produtivos e a dependência mútua entre países podem afetar a segurança econômica e a soberania nacional.
- Tecnologia e Inovação: Avanços tecnológicos e a inovação desempenham papel significativo no poder econômico de uma nação, afetando sua competitividade no mercado global.
- Instituições Financeiras Internacionais como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, a par da Organização Mundial do Comércio (OMC), influenciam a política econômica global, moldando práticas de financiamento e investimento de países em desenvolvimento.
Nos últimos anos, países como China e Índia emergiram como potências econômicas, desafiando a hegemonia ocidental tradicional, especialmente dos Estados Unidos e da União Europeia. A política de “Belt and Road Initiative” da China exemplifica a busca por influenciar geopoliticamente através da colaboração econômica, ao construir infraestrutura e facilitar o comércio em várias regiões do mundo. Simultaneamente, a formação dos BRICS (Brasil, Rússia, India, China e Africa do Sul) trouxe às relações internacionais uma nova força, concorrente entre si, mas atenta à necessidade de criar uma alternativa ao comércio mundial.
A geoeconomia não é apenas marcada por rivalidades entre estados ou zonas económicas, mas também por cooperação assente em conflitos onde a concorrência por recursos escassos frequentemente leva a tensões geopolíticas, como se observa no Médio Oriente e em África.
A celebração de acordos comerciais e de tratados de livre comércio podem ser vistos como ferramentas para aumentar a influência econômica e política nas várias geografias promovendo as vantagens competitivas em determinadas regiões.
No fundo, continuamos confrontados com o dilema de Umberto Eco quando nos dizia que “estávamos convencidos de que, com a globalização, todo o mundo pensaria da mesma forma. Temos um resultado contrário sob todos os aspetos. Ela contribuiu para a destruição da experiência comum”. A palavra agora é de Trump ou de Xi Jinping.

Dr. António Tavares
Professor de Ciência Política e Relações Internacionais.
Auditor da AACDN nº 1061/2012

