Caros Associados,
Dirijo-me a todos vós num momento particularmente simbólico e exigente da nossa história coletiva. A celebração da Revolução de 25 de Abril de 1974, marco fundador da democracia portuguesa contemporânea, deve ser não apenas recordada, mas profundamente refletida à luz dos desafios atuais — nacionais, europeus e globais.
Vivemos uma era de complexidade crescente no sistema internacional. O panorama geopolítico global encontra-se marcado por tensões estruturais entre blocos de poder, reconfiguração de alianças estratégicas, disputas por recursos críticos e uma transformação acelerada das dinâmicas de segurança e defesa. Conflitos armados persistem e emergem em diferentes geografias, enquanto a guerra híbrida — que integra dimensões cibernéticas, informacionais e económicas — redefine o próprio conceito de soberania.
A crescente multipolaridade do sistema internacional traduz-se numa redistribuição do poder que desafia a ordem liberal internacional construída após a Segunda Guerra Mundial. Assistimos a uma maior assertividade de potências emergentes, à redefinição das esferas de influência e à erosão de mecanismos multilaterais que, durante décadas, serviram de base à estabilidade relativa do sistema internacional.
Neste contexto, importa distinguir entre aquilo que é comunicado à opinião pública e aquilo que, de facto, é negociado nos bastidores da diplomacia internacional. A narrativa pública tende, por necessidade política e estratégica, a simplificar realidades complexas, a enfatizar consensos e a mitigar divergências. No entanto, a realidade das negociações internacionais é substancialmente mais densa: envolve equilíbrios delicados de poder, concessões recíprocas, interesses económicos profundos e, muitas vezes, decisões que moldarão o futuro das nações durante décadas.
A opacidade inerente a muitos processos negociais não deve ser interpretada exclusivamente como falta de transparência, mas antes como uma condição estrutural da diplomacia contemporânea. A negociação internacional exige espaços de confidencialidade que permitam a construção de compromissos sustentáveis. Contudo, esta realidade coloca desafios significativos à perceção pública, alimentando, por vezes, desconfiança nas instituições e facilitando a disseminação de narrativas simplificadas ou mesmo distorcidas.
A circulação de informação, amplificada pela velocidade das plataformas digitais, contribui simultaneamente para uma maior transparência e para uma maior vulnerabilidade à desinformação. A construção de perceções públicas tornou-se, ela própria, um campo de batalha. A manipulação informacional, a instrumentalização de redes sociais e a disseminação de conteúdos falsos ou descontextualizados constituem hoje ameaças concretas à coesão social e à estabilidade democrática.
A literacia mediática e a capacidade crítica dos cidadãos emergem, assim, como elementos centrais na defesa das sociedades democráticas. Não basta ter acesso à informação; é necessário compreender os seus contextos, as suas fontes e os seus objetivos. Este é um desafio particularmente relevante numa época em que a distinção entre informação, opinião e propaganda se torna cada vez mais difusa.
No domínio da defesa, assistimos a uma redefinição conceptual que ultrapassa o paradigma clássico de confronto militar direto. A segurança nacional passa a integrar dimensões energéticas, tecnológicas, sanitárias e ambientais. A interdependência global, embora geradora de oportunidades, expõe simultaneamente as nações a vulnerabilidades sistémicas que exigem respostas coordenadas e multidisciplinares.
A pandemia recente demonstrou, de forma inequívoca, a importância da resiliência institucional e da capacidade de resposta integrada dos Estados. Do mesmo modo, as crises energéticas e climáticas evidenciam a necessidade de políticas estratégicas sustentadas, capazes de antecipar riscos e mitigar impactos.
É neste enquadramento que devemos posicionar Portugal. Enquanto Estado-membro da União Europeia e aliado no quadro da NATO, o nosso país desempenha um papel que, embora frequentemente descrito como periférico, é estrategicamente relevante. A nossa posição geográfica atlântica, a ligação histórica a múltiplos espaços culturais e económicos — nomeadamente o espaço lusófono — e a tradição diplomática de diálogo e mediação conferem a Portugal uma capacidade singular de atuação.
Portugal tem, historicamente, demonstrado uma vocação para o multilateralismo e para a construção de consensos. Esta vocação não resulta apenas de uma opção política, mas de uma leitura estratégica da sua própria posição no sistema internacional. Num mundo caracterizado por assimetrias de poder, a capacidade de influenciar através da diplomacia, da cooperação e da credibilidade torna-se um ativo fundamental.
Não podemos ignorar que o peso relativo de Portugal no sistema internacional é condicionado por fatores económicos e demográficos. Contudo, a influência de uma nação não se mede exclusivamente por indicadores quantitativos. Mede-se também pela sua credibilidade, pela consistência das suas posições e pela sua capacidade de construir pontes onde outros constroem barreiras.
Neste contexto, o espaço da língua portuguesa assume particular relevância. A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa constitui uma plataforma estratégica que, embora ainda subaproveitada, encerra um potencial significativo no plano político, económico e cultural. A afirmação de Portugal neste espaço poderá contribuir para reforçar a sua projeção internacional e diversificar os seus eixos de influência.
No domínio europeu, Portugal enfrenta o desafio de afirmar a sua voz num contexto de integração crescente. A União Europeia encontra-se, ela própria, num momento de redefinição, confrontada com questões estruturais relacionadas com a sua governação, a sua autonomia estratégica e o seu posicionamento global. A participação ativa de Portugal neste processo será determinante para assegurar que os seus interesses e valores sejam devidamente representados.
É expectável que Portugal continue a afirmar-se como um ator comprometido com o multilateralismo, com a defesa do direito internacional e com a promoção da estabilidade global. No domínio da defesa, a crescente exigência de investimento e modernização coloca desafios estruturais que exigem consenso político e visão estratégica de longo prazo. No domínio político, a preservação da autonomia decisória num contexto de interdependência europeia será uma das grandes provas da nossa
maturidade democrática.
Ao evocar o Revolução de 25 de Abril de 1974, recordamos não apenas o fim de um regime autoritário, mas o início de um projeto coletivo assente na liberdade, na participação cívica e na dignidade humana. A transição democrática portuguesa constituiu um marco de enorme relevância, não apenas no plano interno, mas também no contexto internacional, sendo frequentemente referida como um exemplo de mudança pacífica e bem-sucedida.
A importância do 25 de Abril transcende a sua dimensão histórica. Representa um referencial ético e político que continua a orientar o nosso percurso coletivo. Os valores de liberdade, igualdade e solidariedade que emergiram desse momento continuam a ser pilares fundamentais da nossa identidade enquanto sociedade democrática.
Todavia, a democracia não é um estado adquirido; é um processo contínuo, que exige vigilância, responsabilidade e compromisso. Num tempo em que assistimos ao ressurgimento de discursos populistas, à erosão da confiança nas instituições e à fragmentação do espaço público, torna-se imperativo reafirmar os valores que estiveram na génese do 25 de Abril.
A participação cívica, a transparência institucional e a responsabilidade política são elementos essenciais para a sustentabilidade do sistema democrático. A qualidade da democracia depende, em grande medida, da qualidade do envolvimento dos seus cidadãos. Uma sociedade civil ativa, informada e crítica constitui a melhor garantia contra derivas autoritárias e contra a degradação das instituições.
Enquanto Presidente da Associação AACDN, sinto a responsabilidade de sublinhar o papel dos nossos associados neste contexto. As organizações da sociedade civil têm hoje uma relevância acrescida na construção de uma cidadania ativa e informada. Cabe-nos contribuir para o debate público com rigor, independência e sentido crítico, promovendo uma reflexão que vá além das narrativas superficiais.
É igualmente importante reconhecer o papel das instituições na promoção da coesão social e na redução das desigualdades. A justiça social constitui um elemento estruturante da estabilidade democrática. Sem ela, a liberdade perde substância e a democracia fragiliza-se.
Devemos, por isso, olhar para o futuro com lucidez. O mundo que se desenha será inevitavelmente mais competitivo, mais incerto e mais exigente. Portugal terá de saber posicionar-se com inteligência estratégica, preservando a sua identidade e os seus valores, ao mesmo tempo que se adapta às novas realidades globais.
A celebração do 25 de Abril em 2026 deve ser, assim, mais do que um momento de memória. Deve ser um momento de compromisso renovado. Compromisso com a liberdade, com a democracia, com a responsabilidade coletiva e com o papel que cada um de nós pode — e deve — desempenhar na construção de uma sociedade mais justa, mais informada e mais resiliente.
Conto convosco para esse caminho.
Com elevada consideração,
Miguel Guimarães
Presidente da AACDN

