Geopolítica do Caos: a crise da confiança

A confiança é o pilar essencial de todas as relações. É algo íntimo e estrutural. Perante a nossa apatia, desmorona-se, instalando-se o medo e a dúvida. Aquilo que dávamos como garantido (tantas vezes, sem pensar, sem questionar) – a ilusão da estabilidade que alimenta o contrato social – é diariamente bombardeado por quem prefere o caos ao consenso, a desagregação à união. A verdade já não tem uma casa comum. O que parecia inabalável, os garantes da Paz assumidos após terríveis conflitos, é rompido e corrompido, normalizando o absurdo e a mais imbecil mentira. A nobreza da liderança é dessacralizada pela expressão do – até então – indizível, empoderando-se o povo com o requinte do “agora pode”. E assim se passa a questionar tudo e a acreditar em nada. A geopolítica contemporânea reflete esse colapso intrínseco, que se alastra pelas comunidades, qual pandemia. A guerra deixa de ser o último recurso – até então remetido ao impensável – e transforma-se em ferramenta de influência. A diplomacia verga-se à chantagem. A verdade factual dá lugar à guerra de narrativas. E quem ganha? Os que promovem a desordem, os que exploram a desconfiança como arma. Governos autoritários emergem como “soluções” no meio do pânico, oferecendo o nada em troca de tudo o que sempre importou. O medo legitima o retrocesso. O caos já não é só consequência; é estratégia.
Precisamos de resgatar a confiança como valor político, cultivar lideranças que não temam a transparência, reabilitar a memória coletiva para reconhecer os perigos do autoritarismo disfarçado de estabilidade. Impõe-se reaprender a dialogar. E, sobretudo, recordar sempre: a confiança não é ingénua – é resistência. Num mundo que se fragmenta em falsas alteridades e na superioridade empáfia, nas certezas absolutas e mentiras convenientes, confiar torna-se num ato radical de lucidez. Parafraseando o preâmbulo da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia, “Os povos da Europa, ao criar uma união cada vez mais estreita entre si, estão decididos a partilhar um futuro pacífico baseado em valores comuns.” Esses valores — a dignidade humana, a liberdade, a democracia, a igualdade, o Estado de direito e os direitos humanos — não são apenas palavras num tratado: são as fundações de uma paz duradoura. A força da União Europeia reside precisamente na diversidade dos seus povos, culturas e histórias. É essa pluralidade que alimenta a resiliência do projeto europeu. A união pela diversidade é mais do que um lema; é uma resposta concreta ao nacionalismo retrógrado e à polarização crescente.

Temos de confiar no projeto europeu para a construção de um mundo mais justo e tolerante – como tal, menos caótico –, onde a Democracia, a Justiça, a Liberdade e a Paz são valores inalienáveis — não como ideais utópicos, mas como compromissos diários. Como podemos ler no EU Strategic Compass: “A força da nossa União reside na unidade, na solidariedade e na determinação.” Ignorar esta responsabilidade é correr o risco de repetir os erros do passado. Como alertou Winston Churchill em tempos igualmente sombrios: “Se falharmos, então todo o mundo, incluindo os Estados Unidos, incluindo tudo aquilo que conhecemos e prezamos, afundar-se-á no abismo de uma nova Idade das Trevas, ainda mais sinistra e talvez mais prolongada, iluminada pelas luzes de uma ciência pervertida.”
No meio do caos, a confiança revela-se, mesmo na própria ausência: preciosa, difícil de
construir, fácil de perder. Quando sumida, resta o quê? O cinismo? O isolamento? A radicalização? A demagogia manipuladora? O autocrata farsante? Sem confiança, a sociedade sucumbe. Exige-se que lutemos por ela. Com coragem, verdade e memória.

Pedro Múrias é Auditor de Defesa Nacional e de Segurança Interna, além de Investigador
Associado do Instituto da Defesa Nacional. Doutor em Estudos Africanos pela Faculdade
de Letras da Universidade do Porto, co-coordena actualmente a nova Pós-graduação em
Relações Internacionais, Diplomacia e Geopolítica do ISAG – European Business School.

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